
Entre todos os pacientes com câncer, aqueles diagnosticados com neoplasia pulmonar apresentam a maior prevalência de doença cardiovascular pré-existente e o risco mais elevado de desenvolver complicações cardíacas durante e após o tratamento. Esta realidade clínica exige uma abordagem multidisciplinar, onde o cirurgião torácico trabalha para otimizar desfechos integrados.
A Epidemiologia da Conexão Cardiopulmonar
Pesquisas recentes demonstram que existe uma associação bidirecional entre doença arterial coronariana (DAC) e câncer de pulmão. Estudos revelam que pacientes com DAC grave (escore SYNTAX elevado) apresentam risco aumentado em até 2,25 vezes de desenvolver câncer de pulmão em comparação àqueles com DAC leve. Esta associação persiste mesmo após ajuste para fatores de risco compartilhados como idade, índice de massa corporal, gênero e tabagismo, sugerindo mecanismos fisiopatológicos comuns.
Similarmente, pacientes diagnosticados com câncer de pulmão apresentam risco particularmente elevado de desenvolver doenças cardiovasculares incidentes, sendo a prevalência de preexistência de doença cardíaca nesta população a mais alta entre todos os tipos de câncer. Esta realidade torna obrigatório o rastreamento cardiovascular adequado em todo paciente diagnosticado com malignidade pulmonar.
Mecanismos Fisiopatológicos Compartilhados
A inflamação sistêmica emerge como mecanismo unificador central na conexão entre doença cardiovascular e câncer de pulmão. Ambas as condições compartilham ativação de vias inflamatórias complexas, envolvendo citocinas pró-inflamatórias que promovem tanto a aterogênese quanto a carcinogênese. A exposição a carcinógenos ambientais, particularmente tabagismo e poluição do ar, impacta simultaneamente o endotélio vascular e o epitélio respiratório.
Fatores de Risco Compartilhados e Sinergias Patogênicas
O tabagismo permanece como o denominador comum mais importante. Responsável por aproximadamente 85% dos diagnósticos de câncer de pulmão, o tabagismo simultaneamente acelera a aterosclerose coronariana através de múltiplos mecanismos: disfunção endotelial, inflamação vascular, aumento de trombogenicidade e dislipidemia.
Pacientes que nunca fumaram apresentam menor prevalência de ambas as condições, reforçando a importância de cessação do tabagismo como estratégia preventiva primária.
Exposições ambientais ocupacionais, incluindo amianto, sílica e produtos industriais, aumentam simultaneamente o risco de câncer de pulmão e doença cardiovascular prematura. A hipertensão, diabetes e hiperlipidemia, reconhecidas como fatores de risco cardiovascular tradicionais, frequentemente coexistem em pacientes com diagnóstico de neoplasia pulmonar, criando contextos de risco composto elevado.
Implicações Clínicas para Avaliação Pré-Operatória
Pacientes candidatos à ressecção cirúrgica de tumores pulmonares requerem avaliação cardiovascular minuciosa antes de intervenção. A presença de doença cardiovascular prévia não constitui contraindicação absoluta à cirurgia, mas exige estratificação cuidadosa de risco, otimização medicamentosa e monitoramento intensivo perioperatório. A ecocardiografia, teste de esforço quando indicado e avaliação de coronarianografia devem ser considerados em candidatos de risco elevado.
A avaliação pré-operatória integrada deve considerar a capacidade funcional cardiorrespiratória global, avaliando não apenas a função pulmonar residual, mas também a reserva cardíaca. Em alguns casos, a discussão multidisciplinar entre cirurgião torácico, anestesiologista e especialistas é essencial para estabelecer estratégias de manejo seguro.
Manejo Integrado e a Vigilância Pós-Operatória
O acompanhamento pós-operatório deve enfatizar não apenas a recorrência oncológica, mas também monitoramento cardiovascular. Pacientes submetidos a ressecção pulmonar maior podem experimentar mudanças hemodinâmicas significativas, particularmente se houver redução importante da capacidade vital. Vigilância para hipertensão pulmonar pós-ressecção, insuficiência cardíaca direita e arritmias atriais é essencial.
A reabilitação pulmonar oferece benefício cardiovascular adicional, melhorando a capacidade funcional cardiorrespiratória e reduzindo fatores de risco cardiovascular secundários. Cessação do tabagismo no período perioperatório proporciona benefícios imediatos tanto pulmonares quanto cardiovasculares.
Perspectivas Futuras e Cuidado Centrado no Paciente
Pessoas que já trataram de câncer de pulmão enfrentam um maior risco de complicações cardiovasculares. Por isso, monitoramento de fatores de risco, uso apropriado de medicamentos e exames cardíacos periódicos são estratégias baseadas em evidências para otimizar longevidade e qualidade de vida.
Na Cirurgia Torácica do Vale, a abordagem a pacientes com diagnóstico de câncer de pulmão integra avaliação cardiovascular completa, assegurando que cada candidato à intervenção cirúrgica seja otimizado para redução máxima de risco perioperatório e alcance dos melhores desfechos oncológicos e funcionais.
Referências Bibliográficas
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